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Depoimento: Amadeu Amaral , uma história

Por: João Martinelli, em 18.02.2009 / visualizada : 892

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Depoimento: Amadeu Amaral ,  uma história - Clique para Ampliar   Amadeu Amaral foi poeta, folclorista, filólogo e ensaísta. Foi eleito para ocupar a cadeira  15 na Academia Brasileira de Letras, antes ocupada por Olavo Bilac. Sua obra mais famosa, "O Dialeto Caipira" de 1920, foi uma das primeiras obras de estudo do linguajar do caipira.

      Reverenciado por sua importância em nossa cultura, tem seu nome lembrado como patrono de uma escola pública, num dos bairros mais antigos e tradicionais da cidade de São Paulo, o Belenzinho.

      Foi essa mesma escola que se tornou notícia nos últimos dias, em virtude de atos de vandalismo, praticados tristemente pelos próprios alunos. Cenas de uma verdadeira batalha campal foram mostradas nos principais noticiários televisivos.

      A Escola Estadual Amadeu Amaral, aonde muitos aprenderam as primeiras letras,  ocupou um lugar em noticiários que nunca deveria ocupar. Quem por lá passou, como eu, não pode deixar de sentir duplamente a tristeza de vê-la vilipendiada por um bando de desordeiros.

      Ali deixei um bonito e importante pedaço da minha vida, por isso senti-me atacado. Cada vidro de janela quebrado, cada telha arrancada, cada carteira escolar quebrada, era como se partes de mim estivessem sendo mutiladas.

      A escola Amadeu Amaral ainda conta a história não somente de pessoas, mas de famílias inteiras que lá estudaram. Minha mãe e meu pai, já falecidos, meus tios, primos, meu irmão. Quantos ainda não moram no bairro e podem contar coisas da infância escolar, atestando que a escola em questão não é somente um prédio antigo, mas um importante pedaço da história de toda uma gente.

      O episódio fez aflorar em minha memória, cenas, que se pudesse gostaria de estampar em jornais. Fazer justiça; demonstrar aos jovens de hoje que a escola deveria ser reverenciada e tida como um "santuário". Em minhas lembranças estão Dona Zilda - professora do meu primeiro ano ( e não era "Tia",como hoje é costume se chamar  aquela que nos ensina), Dona Regina, Dona Odete (essa era muito brava), Dona Heloisa. Lembro-me também do guarda civil, que nos levava em casa quando a mãe não podia nos esperar na porta da escola.

      Revendo as fotos da época, encontrei as da minha mãe. Com elas podemos conhecer como era a escola na década de 1930. Olhando para essas meninas eu me permito perguntar se é possível alguém imaginá-las quebrando vidros e carteiras, somente porque queriam sair antes do horário? Será que podemos imaginá-las ofendendo a professora, com palavrões e ainda fazendo ameaças como hoje em dia estamos acostumados a ver nas escolas públicas? É claro que não!

     Queremos que os jovens reverenciem aqueles que devotaram suas vidas à cultura de nossa gente, muito diferente dos ídolos de hoje. Acreditamos piamente que aqueles que cultivam um ambiente de estudo, jamais pensarão em destruir uma escola como o fizeram esses jovens.

      Nos anos de 1960, período caracterizado como o de revolta de jovens, eu e muitos da minha geração, fomos às ruas, clamando contra a ditadura militar. Queríamos mais liberdade, porque queríamos ter o direito de escolher livremente os nossos destinos. Em 1968, os estudantes da Escola Amadeu Amaral  também participaram nas ruas por essa conquista. A luta era também por um ensino para todos e de boa qualidade.

      Enfrentamos a polícia nas ruas, fizemos notícias, nossa luta era de esperança. Queríamos ficar mais tempo na escola, aprender mais, diferentemente dos jovens que depredaram a escola somente porque queriam sair mais cedo.

Professor Enio Pinto de Almeida

 




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