Por: João Martinelli, em 15.10.2008 / visualizada : 976
Naquela 6a série havia um menino que era tão mentiroso que o danado conseguiria derrotar o pobre Pinóquio com facilidade.
Para se ter uma idéia, se usássemos o próprio nariz dele para medir o quanto ele já mentiu, levando-se em consideração que ele tinha apenas doze anos de idade e desconsiderando as mentiras contadas fora da escola, seria possível dar cinco voltas ao redor do colégio.
As mentiras mais "gritantes" foram as seguintes: a primeira foi o falso recado dado de sala em sala por ele, dizendo que a escola estava pegando fogo e que todos deveriam descer imediatamente. Foi aquela gritaria seguida de tremenda confusão. A segunda foi mais grave: ele inventou que os alunos das 5as séries haviam dito que conseguiriam bater em todos os alunos das 6as séries. Na hora do recreio foi um verdadeiro caos, parecia o filme "Gangues de Nova Iorque".
Apesar de todas as mentiras e de tanto aprontar, não podia ser expulso, pois toda criança tem o direito de freqüentar a escola com o dever de estudar - quando quiser, é claro.
Mas o tipo de mentira mais comum utilizada pelo menino era para sair de sala de aula:
- Professora, eu posso tomar remédio? Aqui está ele! É rapidinho! - dizia ele.
- Não demore! - respondia a professora.
E lá ia o menino mentiroso segurando o riso.
Trocava o professor, trocava-se a mentira.
- Professora, esqueci de entregar o meu trabalho para a professora de inglês... ela está na sala ao lado, posso levar "rapidex" ?
- Eu não deveria deixar, mas para não te prejudicar, leva logo!
Parecia que o seu repertório não acabava nunca.
- Professor, estou muito apertado! Posso ir ao banheiro?... eu não estou agüentando! - inventava ele.
- Você tem 1 minuto! - respondia o professor.
Depois vinha a aula de Ciências.
- Professora, minha cabeça está doendo muito! Eu posso falar com a coordenadora para saber se ela tem algum remédio? - dizia ele.
- Tudo bem! - dizia a professora preocupada.
Ele era aquele tipo de garoto que poderia concorrer ao Oscar de melhor ator sem a menor sombra de dúvidas. Todas as suas encenações eram dignas de aplausos. Fazia caras, bocas e gestos tão convincentes que até um carrasco prestes a executar uma sentença acreditaria.
O menino era tão debochado que ele adorava contar vantagem para os outros colegas, chamando-os de bobos, pois não conseguiam enganar os tontos dos professores para sair de sala de aula.
Porém, toda pessoa que se julga esperta tem o seu dia de tola. E foi justamente o que aconteceu com o menino mentiroso.
Acordara passando mal naquele dia. Eram leves pontadas na barriga. Mesmo assim, resolveu ir para a escola, pois ele não poderia deixar de se encontrar com os seus amigos, paquerar as menininhas das outras séries, ficar sabendo das novidades, ou seja, exercer o seu "lado social", assim como quem vai a um clube de lazer.
O grande azar do menino mentiroso é que o professor de Matemática já havia descoberto a sua artimanha e resolveu, justamente naquele dia, barrar o coitadinho.
- Professor, estou com dor de barriga... desde a madrugada eu não estou me sentindo bem... agora estou sentindo dores na barriga... posso ir ao banheiro? - falou o menino.
- Claro que não! Você sempre sai na minha aula! Toda vez você tem uma desculpa muito boa. É dor no braço, dor de cabeça, ânsia de vômito, fazer xixi, falar com a diretora... hoje vamos quebrar a rotina... você não vai sair.
- Mas, profes...
- Nem "mais" nem "menos"... você já não disse que eu sou tonto e acredito em qualquer coisa que você fala? Ou seja, te trato como ser humano, com direito de ir e vir, sem ter que ficar determinando se você pode ou não ir ao banheiro ou beber água e você ainda me chama de tonto! Pois bem, acabou a sua liberdade.
O menino mentiroso ficou bravo e gritou:
- Eu vou fazer lá no fundo da sala!
- Pode fazer... quando terminar, peça para a faxineira a água sanitária e um pano para você limpar!
O menino viu que o professor estava irredutível. Para não correr o risco de levar mais uma advertência e a mãe ser chamada na escola para ficar brigando com ele na frente de todos, resolveu se sentar.
- Faltam só quinze minutos para o recreio! - disse ele para si mesmo - Depois eu penso em outras mentiras para enrolar esse professor.
Sentou-se e tentou "segurar" a situação. Mas o pobrezinho sofreu muito... aqueles quinze minutos pareciam quinze horas e não passavam por nada.
Ele segurou o máximo que podia, chegando a ficar branco como uma folha de papel. Quando faltavam cinco minutos para o sinal tocar, ele se levantou e saiu em uma carreira tão grande que todos se assustaram e até mesmo o professor ficou atônito.
O pobrezinho não conseguiu chegar a tempo no banheiro e se sujou pelo caminho.
Moral da história: a culpa é do professor que não acreditou no menino mentiroso.
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