Por: Redação, em 29.11.2011 / visualizada : 209
Hoje em dia as salas de aulas, parecem menores, mais apertadas. Sei que não é nada disso, com certeza é o cansaço dos 30 anos. Não de idade, mas de trabalho.
Sei que elas continuam do mesmo tamanho, o que aumentou foi o número de alunos e na mesma proporção a falta de interesse deles.
Apenas uns poucos perdidos na sala-sinto pena deles- demonstram desejo de aprender, é como se os demais já soubessem tudo, freqüentando apenas pelo certificado, com um futuro já garantido. Que futuro?Papel sem conhecimento?
Participei em Agosto de um Fórum internacional de Educação onde se repetiu que: A escola é do século 19, nós professores do século 20 e os alunos do século 21. Do ponto de vista da adoção de tecnologias-principalmente as sonoras-até concordo, mas no restante...
Desde que ingressei no Estado sempre ouvi que no passado a escola pública era melhor. Aliás, sempre ouvi isso. Será? Às vezes penso que seja mais uma daquelas lendas urbanas, como a da loira dos banheiros, que tanto assustava e que muita gente jurava ter visto.
Celulares são coisas comuns, mensagens e fotos em plena aula, tomá-los e posteriormente devolve-los aos pais/responsáveis não parece surtir nenhum tipo de efeito. Para muitos a família já desistiu.
Quantas vezes ouvi de pais algo que só me entristeceu: "O que posso fazer pelo meu filho? Não sei mais como agir!"
Se eles não sabem, podem ter certeza, eu muito menos!
O desrespeito tornou-se constante e quando isso acontece no máximo os alunos são chamados pela Direção, algumas suspensões esparsas, pais chamados, mas que nada fazem ,ou melhor não conseguem fazer, perderam o controle faz tempo.
É interessante o nível de punições estabelecido pelo próprio Governo no Acessa Escola. Um banner colocado no fundo da Sala de Informática estabelece punições que oscilam em suspensões de 3 meses a um ano sendo dobradas na reincidência, para desacato, ameaças a integridade e agressões verbais e físicas.Punições que recaem sobre os usuários(alunos) quando desacatam o estagiário responsável pala sala: também aluno da própria escola.
Quantas vezes somos desacatados, agredidos verbal e fisicamente, e mesmo ameaçados?O que acontece? Muitas vezes pelo que parece os problemas somos nós, pois, depois de situações de violência sofridas pelo educador é ele que acaba mudando de escola ou afasta-se por problemas de saúde.
A escola foi assumindo um papel para o qual ela nunca esteve preparada: o de substituir a família! Pais deixando seus bebes na creche, pouco se importando com eles, desde que sejam devolvidos sem mordidas, alimentados, de banho tomado e roupa trocada.
As crianças crescem e o desinteresse dos pais continua: poucos comparecem às reuniões e sempre são aqueles cujos filhos foram bem ao longo dos bimestres. Os pais dos que apresentam dificuldades, raramente aparecem, mesmo quando convocados.
Para muitos o abandono começou muito cedo: nas areias dos parquinhos das creches.
Nestes anos acompanhei o crescimento de muitas crianças e acabei perdendo o das minhas. Meus dois filhos cresceram e eu não estava lá.
Quantas coisas ficaram pelo caminho ao longo desse tempo; a nossa vontade de querer mudar foi uma delas. Pensar que há 11 anos saíamos às ruas e brigávamos por um piso de 5 SM e hoje nos contentamos dentro das salas com muito pouco.Vivemos em uma época onde percebemos- não só através de nossos alunos-, um grande consumismo, garantido na maior parte das vezes pelo parcelamento e o endividamento de muitos .Nós educadores também adotamos essa filosofia consumista, mas o pior foi a parte que nos coube através do Governo : um reajuste pago em 4 anos através de suaves prestações e até mesmo nossas férias foram parceladas!
Arrumando meu quarto de estudos um dia desses-sou extremamente desorganizado- encontrei dentro de um livro o planejamento de uma aula sobre o Egito. Assunto, aliás, que trabalho até hoje no Ensino Médio. O planejamento era de uns 10 anos atrás e mostrava uma aula bem mais rica do que as minhas de hoje.
Esta semana na sala dos professores da escola que faço substituição à noite, ouvi uma conversa entre dois seres-jamais poderiam ser chamados de professores-sobre um aluno que apresentava problemas de comportamento: "O que pode se esperar dele? Fruto de um óvulo defeituoso com esperma podre!"
Mudou a Escola? Mudou o aluno? Mudaram os professores? Eu que mudei?
Será que desisti? Será que chega um ponto na vida da gente em que desistimos de tudo aquilo em que acreditávamos?
Às vezes penso que as coisas mudaram e eu permaneci parado no tempo apenas olhando para trás!
Se algumas pessoas melhoram com o tempo como os bons vinhos, eu com certeza não pertenço a esta safra: atualmente estou mais para aqueles chocolates com alto teor de cacau: meio amargo!
Roberto Rodrigues da Silva - Professor de História da Rede Pública Estadual (Indaiatuba) e Diretor de Centro Educacional Municipal de Educação Infantil (Campinas) e colaborador do CAPESP.
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