Por: João Martinelli, em 08.03.2010 / visualizada : 130
Ía começar a audiência de interrogatório do réu.
- O senhor sabe do que está sendo acusado? perguntou o juiz.
- Sei, Excelência!
- E confessa o crime?
- Sim, Excelência!
"Tanto melhor", pensou o juiz. Esta audiência vai ser rápida.
- Aqui consta que o senhor foi flagrado, por um câmera de circuíto interno de TV, de uma sala de espera de um consultório arracando uma página de uma revista velha e enfiando no bolso. Está certo?
- Sim, Excelência!
- Essa revista, ou seja, página, tinha algum valor financeiro? Tinha algum valor histórico, inestimável? Porque se não tiver vou considerar crime de bagatela e dispensá-lo.
- É de valor inestimável.
"Engraçado", pensou o juiz. "Toda a vez que eu vou ao dentista, lá estão sempre as mesmas revistas velhas na sala de espera. Já li umas dez vezes. Nem aguento mais! E esse homem consegue achar uma preciosidade no meio delas"...
Curioso, abriu o processo onde estava a prova do crime... a tal página da revista furtada. Era um artigo assinado pela Dra. Zilda Arns Neumann, fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Criança, que cuida de 1,5 milhão de gestantes e crianças, e que conta com mais de 150 mil voluntários em cerca de 3,5 mil municípios brasileiros.
Leu alguns trechos: "O Brasil pode acabar com a miséria. Basta que haja uma decisão política para um trabalho conjunto articulado e planejado entre Governo e sociedade. Mas qualquer projeto de combate à miséria só vai dar certo se os próprios excluídos se tornarem autores da sua ação libertadora". "Nossa", pensou o juiz "antigamente só comunista falava assim". E continuou a ler. "Essa é a maior revolução que o Brasil precisa". Leu mais adiante: "Pessoas vivem como farrapos humanos. Às vezes penso que, cada um de nós, poderia trocar de casa com um miserável por ao menos três dias... Com certeza passaríamos a ser mais ágeis, encontrando soluções para melhorar a qualidade de vida de todos".
- Já percebi o valor inestimável. Quer fazer alguma declaração?
- Sim. Talvez eu não consiga ser um desses inúmeros voluntários, dar a minha colaboração na prática. Mas pelo menos posso ser melhor no meu dia a dia, em casa e no trabalho tratando a todos com um sorriso e lealdade, enfim, ser um exemplo para os que estão ao meu lado. É minha modesta contribuição. Esse é o valor inestimável: fazer o melhor aonde se vive e com quem se convive. E é lógico, ter uma concepção política correta de como fazer para melhorar este País.
- Infelizmente, vou ter que sentenciá-lo.
- Estou pronto para ouvir, Excelência.
- O senhor está condenado a tirar quarenta cópias da página da revista e distribuir, ou sofrer a pena alternativa de conseguir fazer publicar no jornal de sua associação esse artigo, com o compromisso de quem o ler, passar ao outro ler também. Afinal, eu também quero fazer minha boa ação de hoje!
E encerrou a audiência com a consciência tranquila.
Benedicto Ramos Testa é advogado da ASSETJ
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